15.5.07

Eis...

sabia não querê-lo para si (e isso já era um grande avanço).
mas o que fazer com todos aqueles passarinhos que voltavam voando para dentro do seu estômago com toda aquela propriedade?
pedir a eles, gentilmente, que saissem não seria o suficiente, acreditem. ela já havia tentado outras vezes.
não, não seria agora que seria atendida.
voltar à terapia também era algo que não se encaixava nos dias de hoje no seu orçamento.
sem contar que a terapeuta tinha que ter feito algum curso de bruxaria para conseguir tamanha proeza.
"fazer entendê-la que nunca seria o que ela idealizou".
cabia, então, esparar que eles adormecessem, por mais que isso fosse demorar (e como ela sabia que iria), ou quem sabe deixar que eles morressem de tanto se bater lá por dentro.
seria bem feito.
todos mortos, como mereciam estar.

15.11.05

A volta do malandro....

Resolvida a primeira etapa, ela pensava agora qual seria o próximo alvo para direcionar as suas tantas frustrações.
A quem costumava atribuí-las, havia utilizado até ficar roto, gasto.
Apagara, sumariamente, o pobre coitado após uma breve troca de palavras pequenas, suficientes para indicar a competência de cada um de continuar levando.
Pronto. Era o fim da ficção.
Vida real, here she comes.
Só não sabia ainda o que fazer com isso.

***

Olhava, vez por outra, desconfiada com a maneira torta de quem pensa demais. E pensa no que quer e no que não quer. E confunde os dois. E pondera cada paranóia – se é que elas submetem-se a sofrer a flexão desse maldito verbo.
Depois apela para um minuto de consciência que a leva a crer na vida como algo mais real do que ela pretendia que fosse.
E, assim, sofre cada segundo desse desatino que a pegou pela mão e não parece mais querer largar
.

***

Tinha medo. Não era qualquer receio que pudesse ser controlado não. Era algo mais perto do pavor, do terror de saber que havia sim por ali um tal abismo, ainda que mal construído por ela própria.
Olhavam-se e perdiam-se.
Algo fazia com que as mãos, tateando um campo escuro, voltassem a se procurar, mesmo que perdidas, e ai era um consolo que não tinha tamanho. Carinho feito lá no coração mesmo.
Passaram dias assim, de encontros e desencontros bem coloridos que repisavam o entendimento cultivado por ali: ainda existe muito amor.

4.10.05

Mais uma ficção...

procurava uma maneira, por mais singela e discreta que fosse, de demonstrar a saudade que ainda existia por ali.
e teria que ser assim, doce e discreta. não poderia assustá-lo. não de novo. não poderia se dar ao direito de falar demais ou de menos. não quando sabia ser essa sua última chance.
mas poderia também, quem sabe, esperar o tal nível da angústia baixar, o que aconteceria por esquecimento ou até mesmo por distração. verbo reflexivo que havia trabalhado tanto em si. distrair-se. claro que uma ajudinha do hiperfoco cairia bem nessas horas.
enquanto isso, enquanto não sentia coragem pra nenhuma das duas coisas, continuaria ali, "tesa feito um leque", vendo pequenas porções dele escondidas em tantos outros que passavam em sua frente. como ele, sem nota-la.
vivo? morto? solteiro?casado?
acreditava ter essas respostas, tratando-se da grandeza que possuiam em si.
queria mesmo era os malditos detalhes, eles sim interessavam.
barbudo? dissolvendo pastilhas fétidas pro estômago? o cigarro ainda seguro no braço do violão? amando? sofrendo? perdido? acordado? lembrando? dormindo?
ai como queria, como precisava sabê-lo. por um mísero instante apenas. um pequeno momento bastaria.
imploraria, enfim, por algumas melodias e meia dúzia de incentivos que traria cores novas aos últimos dias de tons pastéis.
certamente.

26.9.05

Devaneios

Sentaram os dois ali, em qualquer canto de calçada, sujando a bunda com a cal branca da guia e as mãos, ora frias e inquietas, agora repousavam forte umas nas outras.
Tentativa inútil de não perder de novo, sem perceber que se conheceram pra isso.

Ameaçaram algo como “eu começo ou tu?” e já foram vomitando tudo o que havia provocado engasgos todo esse longo ano.Sem esperar pelo outro.

Falaram-se muito e ouviram-se pouco. Ele menos, ela mais. Gostava de guardar todas as palavras que ele tinha pra dizer, doces ou azedas. Tinha um encanto especial por cada letrinha, cada citação, cada forma de falar, de corrigi-la até, por vezes, coisa que ela odiava, mas abria toda concessão pra ele, que sempre pôde quase tudo.

Quanto mais calada ficava, dividia a atenção entre os olhos fortes dele na boca dela e a tentativa de entender que tipo de domínio era aquele. Que diabo ela poderia fazer pra evitá-lo. E não encontrava sentido nem pra um nem pra outro.

Quanto mais perto ela se deixava ficar, menos entendia que espécie de formigas ele havia deixado ali por dentro, capazes de causar sobe-desce por tanto tempo. Sem regar sem cuidar sem cultivar. Formigas danadas abandonadas e resistentes ao tempo a novas conquistas a sentimentos novos e velhos. Danadas.
Ele não era nada do que ela queria, um covarde. Definia-o bem. Covarde.
E o covarde, aproveitando os escapismos da moça-tão-certa-que-não-o-queria, a puxou pelo braço, sem sequer pedir licença e decretou: a partir de hoje, não te permito me esquecer um só dia.

Ah, idiota!!!!!!!!!!!!
* * * * * * * * * * * * *
Ao som de "Tocando em frente" na voz da Maria Bethânia.

8.9.05

Ó Patria Amada, Idolatrada, Salve, Salve!!!






penhor , no diciónário:
do Lat. pignores. m., objecto que se dá como garantia de uma dívida ou contrato;fig., testemunho;segurança;garantia;sinal;caução.

"... Se o penhor dessa igualdade, conseguimos conquistar com braço forte. "
Hino do Brasil

Quando a merda é definitivamente jogada no ventilador, primeiro vem a sensação de espanto, aquela própria de todo e qualquer tipo de escândalo. O mundo atônito parado em frente a televisão, acompanhando cada depoimento, passo a passo. Surgem os comentários que se iniciam tímidos durante o intervalo do café no trabalho, na hora do almoço em casa, quando opiniões divergem e convergem tendendo a um entendimento quase corporativo, e depois se alongam às mesas de bar, onde a conversa ganha uma passionalidade singular, emociona e une pessoas numa mesma corrente de indignação.

Esse é o sentimento inicial, regado a uma esperança de tudo se acertar e, ao mesmo tempo, a uma frustração doída, machucada por ter acreditado tanto e ter que se deparar com tamanha brutalidade.

Passadas as reações primitivas, chega a hora da pergunta: E agora? Queremos soluções, queremos culpados algemados atrás das grades, provando do gosto podre das celas tão renegadas por eles mesmos, tão esquecidas e largadas ao deus-dará. Queremos sabê-los violentados cruelmente, como são os estupradores, por terem ousado atacar a honra e a esperança de milhões de pessoas que esperavam, nada mais, nada menos, que alguém que olhasse por nós dessa vez.

Como se achar no direito de ludibriar uma nação e tirar dela tudo o que lhe restava? Como cometer um ato tão cruel e ficarem impunes? Passam, agora, dias e noites a elaborar defesas teatrais, onde ainda reservam momentos especiais para o choro e até para o riso!!

Não se faz isso, Ilustres Parlamentares, Excelentíssimo Senhor Presidente. Não se tira a esperança de um povo assim, porque quando se age levianamente dessa maneira, tudo o que resta é violência. E dela, estamos fartos.
A nossa juventude está cada vez mais estática perante toda essa falta de expectativas. Já não conseguimos mais imaginar o futuro como um momento próspero, senão como se fôssemos sócios anônimos dessa empresa falida. Não queremos emigrar para qualquer lugar desse mundo, onde não entendam nossa língua, e acharmos mais digno lavar o chão lá do que “ser doutor” aqui. Queremos desvencilhar a nossa cultura da prostituição, da corrupção e do jeitinho brasileiro. Queremos poder exaltar a magia de um povo que canta e dança e trabalha e faz história.

“É, a gente não tem cara de panaca, a gente não tem jeito de babaca, a gente não está com a bunda exposta na janela pra passar a mão nela. A gente quer viver pleno direito, a gente quer viver todo respeito, a gente quer viver uma nação, a gente quer ser um cidadão.”
Grande Gonzaguinha

28.8.05

Here comes the sun, thu thu ru... And It´s allright!





Final de semana a dois bastava pra ela nos últimos dias.
Curtiam-se, descurtiam-se, enjoavam-se e já se curtiam novamente, porque é bem disso que S E R E L A C I O N A R é feito, né? É uma mistureba de verbinhos reflexivos, uns lindos só de pensar e outros nem tanto, mas fazem nascer essa coisa toda de gruda e desgruda, sim.
Casinha deles, bem limpinha. Com direito até a cachorrinha aventureira, que vez por outra se manda e vai bisbilhotar a vizinhança. Só pra voltar cheinha de plantas agarradas naqueles pêlos todo, como se não fossem soltar nunca mais.
Ela fazia a comida, enquanto ele arrumava tudo: pratos, talheres, copos. E depois, de tão lindo, ainda perguntava se precisava de ajuda. Sorria de lado, negando com a cabeça, feito criança faz, já que perfeccionista que era tinha que fazer tudo sozinha.
Ele se ocupava com o violão e algumas músicas novas tocadas ali, todas do gosto dela. E tocava manso, quase calado, sem anunciar as notas que havia aprendido pra fazer ela cantar, do jeito que ele adorava ouvir. Só, vez por outra, olhava feito criança que quer impressionar, com a cabeça baixa e os olhos focados nela, só nela, que remexia as panelas como se não notasse. Notava tanto que sorria com o corpo todo pra ele.
Depois juntavam-se na cama, abraçados, protegidos um pelo outro, um com o gosto do outro, e dormiam o sonho dos cúmplices.
A solidão gostosa dos dois só havia de ser interrompida por visitas que tinham deixado saudades. E como era bom. Melhor ainda saber de amigos se reconciliando devagarzinho, como deve ser. Não se achou sequer no direito de perguntar qualquer coisa, só de torcer, torcer muito pra que desse certo dessa vez.
E depois ficavam só os dois de novo, com a tv da sala, filmes alugados, ventilador de teto e uma cachorrinha que sumia, vez por outra.

19.8.05

Olha a voz que me resta....


Sentia formigamentos estranhos quando pensava em sentimentos tão grandes. E como eles eram cíclicos. Vez por outra os considerava tão firmes, tão inabaláveis, mas bastava uma carta virtual perdida no meio de uma tarde como essa para lhe fazer enxergar que eles estão sempre em movimento, e como eram vivos!

Leu uma, duas, três vezes aquelas palavras que pareciam ter sido criadas só para causar mais dor. Leu uma quarta vez, pra ter certeza que não estava imaginando nada. Ao final, sorriu, como se desse de ombros pra algo que já foi tão importante. Tinham entendido tudo errado mesmo... não interessava mais.

As vezes não importa o que você diz, quando o receptor só sabe ouvir ofensa. Aprende logo isso, Renata!

" Deixa em paz meu coração, que ele é um pote até aqui de mágoa e qualquer desatenção, faça não... pode ser a gota d´água."